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Viagem de dez dias: 30/12/2011 a 9/1/2012

O que é Cuba para você?

8/1/2012 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

Antes de ir, ouvi todo tipo de opinião. É o Caribe, à luz de um forte sol em belas praias, onde o corpo tem sede de mojitos e daiquiris à vontade nos resortes all inclusive. É terra de cultura afro-espanhola, onde a santeria e o catolicismo se mesclam em ritos constantes de dança, música, oferendas e preces. É a fortaleza rebelde, um grito anti-imperialista ofuscado por grandes dificuldades econômicas. É o último respiro de um comunismo sobrevivente até o último suspiro de Fidel. É pobreza vestida de casas e carros caindo aos pedaços, com gente doida pra dar uma fugidinha do sistema.

1/1/2012 - Vedado (Havana/Cuba)

Bom, acho que tem tudo disso um pouco. O ponto forte da viagem foi desfrutar cada uma dessas perspectivas, tendo a grande oportunidade de nos hospedar em lares de famílias locais (casas particulares), licenciadas pelo governo para receberem turistas e oferecem um pouco do seu cotidiano em desayunos e doses de rum portas adentro.

4/1/2012 - Vedado (Havana/Cuba)

Desde os anos 90, o turismo vem sendo uma das principais (senão a maior) fontes de renda do país. O que é um respiro é também um suspiro – a entrada de recursos vem acompanhada de fortes tragos culturais do mundo inteiro (inclusive a compulsão de comprar e exibir), além da existência de duas economias paralelas: a do peso cubano, moeda nacional, e a do peso convertido, pareado ao dólar para não inflacionar os custos dos cidadãos cubanos. Acontece que a convivência entre as duas não é muito fácil… Basicamente tudo o que é industrializado, mesmo que nacionalmente, é vendido em CUC (o peso convertido), inclusive para os moradores locais. A cerveja, grande amiga dos cubanos, no supermercado, por exemplo, é 1 CUC (aproximadamente 1,2 dólares) – tanto para os estrangeiros como para os que moram ali. Já frutas, legumes, pães e outros produtos mais básicos são facilmente encontrados em pesos cubanos, e são realmente muito baratos se comparados ao dólar, assim como os serviços oferecidos pelo governo ao povo – uma ligação telefônica local ou uma passagem de ônibus custam 1 peso cada, o equivalente a 4 centavos de dólar. Uma minipizza vendida na rua custa 5 pesos cubanos, ou seja, 20 centavos de dólar. E os estrangeiros podem comprá-los (ou utilizá-los, no caso dos serviços), como nós fizemos várias vezes (apesar de que a maior parte dos visitantes prefere estar na redoma do pacote turístico e não se arriscar pelas rotas e preferências do povo).

31/12/2011 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

Por outro lado, ouvimos, com pompas de orgulho (apesar de a maioria nunca ter saído do país e não ter muitas referências externas), famílias cubanas relatando a excelência de seus tratamentos de saúde e escolas. Agentes do governo dedetizam todas as casas com grande frequência, com grande receptividade por parte dos moradores, que se irritam com os turistas que se incomodam com o serviço. “Es salud! La fumigacion es esencial para nuestra familia”. As escolas, apesar de situadas em prédios precários, possuem atividades em tempo integral. O dia começa com a professora lendo e comentando notícias de Cuba e do mundo com a classe, segundo Osmany, pai de Lauren, 10 anos. Após as aulas formais, participam de atividades artísticas, esportivas e de integração social, como os “Ciclos de Interés”, onde as crianças visitam empresas (estatais, por supuesto) para conhecer as diferentes profissões e o trabalho dos adultos. Existe um grande incentivo nas escolas para que os jovens sigam carreira de professores, sendo nosso amigo de Cienfuegos. Mas o que a meninada quer mesmo é seguir carreira na medicina. Lauren é um exemplo disso. Mesmo não tendo grande remuneração (quem trabalha com turismo ganha muito mais do que um médico), é a profissão mais desejada entre as crianças.

Enfim, nossa viagem foi um sandwich criollo, cheio de descobertas de recheios novos, assim como de desfrute de sabores já anteriormente conhecidos.

31/12/2011 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

LA HABANA
6 noites

A capital do país é, turisticamente, dividida em 3 grandes regiões: Habana Vieja, Centro Habana e Vedado.

A Habana Vieja é um bairro histórico declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco e maior núcleo colonial da América Latina. A impressão é que você realmente voltou muito no tempo – farmácias, lojas, museus e restaurantes dão a impressão de você estar na época dos descobrimentos.

No Centro Habana, a volta no tempo também é evidente, mas um pouquinho mais recente – trata-se de construções levantadas na segunda metade do século XIX para exaltar a aristocracia da época. Só que o sentimento de riqueza ficou para trás – o bairro cheira a decadência.

O bairro Vedado é denominado assim por sua posição privilegiada, que permitia a visualização da aproximação de piratas e por isso eram proibidas construções no local. A partir do início do século XX, as principais famílias da cidade começaram a ocupar o bairro com suas mansões. Hoje, é um centro cultural e político – aí está situada a famosíssima Plaza de la Revolución, com os contornos dos rostos de Che Guevara e Camilo Cienfuegos em dois grandes edifícios.

1/1/2012 - Malecón (Havana/Cuba)

Habana Vieja

Como não nos demos tão bem com os outros bairros, este foi nosso refúgio turístico quando não sabíamos bem o que fazer, em qualquer momento do dia: almoçar fora de hora, tomar um mojito, comprar lembrancinhas, ou apenas ver gente.

31/12/2011 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

31/12/2011 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

Valeu a pena:

– Plaza Vieja: praça lindinha, todinha restaurada e colorida. A Casa del Conde Jaruco, de 1737, abriga uma galeria de arte contemporânea. O point é a Factoria Plaza Vieja, uma microcervejaria fabulosa com mesinhas ao ar livre. Tem chopp claro, escuro e negro, na caneca ou na torre, puros ou misturados com suco de tomate, hortelã, rum… Além, é claro, de muita música ao vivo.

31/12/2011 - Plaza Vieja (Havana/Cuba)

8/1/2012 - Plaza Vieja - Habana Vieja (Havana/Cuba)

– Calle Obispo: rua entupida de turistas durante a noite, onde estão lojinhas, livrarias, restaurantes e cafés abertos até bem tarde. Cajeros automaticos abertos até tarde também foram bem úteis ali.

– La Bodeguita del Medio e El Floridita: bares marcados pela presença mais que assídua do escritor Ernest Hemingway, tomando diários mojitos no primeiro e daiquiris no segundo. Lotados de turistas. A Bodeguita é maior, cheia de ambientes com paredes assinadas por todos os seus visitantes e fotos de gente famosa (desde atores brasileiros globais, já que a novela é adesão unânime no país, até figuras direta ou indiretamente políticas, como Pablo Neruda e Salvador Allende), e comemos ali uma Ropa Vieja deliciosa. El Floridita é bem pequena, onde os drinks custam pelo menos o dobro que em outros lugares (6 CUC). É para tomar um (ou dois, ou três…) daiquiri e cair fora.

30/12/2011 - Bodeguita del Medio (Havana/Cuba)

4/1/2012 - La Bodeguita del Medio - Habana Vieja (Havana/Cuba)

4/1/2012 - Cocotaxi en Habana Vieja (Havana/Cuba)

7/1/2012 - El Floridita (Havana/Cuba)

– Plaza de la Catedral: quando fomos visitar de dia, estava fechada para montar uma festa de ano novo… Achei bizarro, um espaço público e turístico como esse, fechado o dia inteiro para montar mesas para convidados llenos de plata, que deviam estar pagando uma fortuna para passar a virada do ano ali. Voltamos em uma noite, e sentamos em uma das mesinhas situadas em plena praça, para fumar um charuto e tomar um mojito. A vista da catedral era intimidadora à noite.

4/1/2012 - Plaza de la Catedral - Habana Vieja (Havana/Cuba)

Centro Habana

Ficamos hospedados ali, na Carlos III (atual Salvador Allende) com Oquendo, na casa de Rosa. A localização é interessante porque está entre Habana Vieja e Vedado, e por isso tem igual distância para ambos. A caminhada dali até a Calle Obispo era de aproximadamente 15 minutos, mas o percurso à noite é totalmente escuro, apesar de relativamente bem movimentado até umas 21h. Na volta das andanças noturnas, sempre pegávamos um táxi ou cocotáxi, por 3 CUC.

31/12/2011 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

31/12/2011 - Habana Vieja (Havana/Cuba)

Valeu a pena:

– Capitólio: apesar de fechado para visitação quando estivemos ali, é imponente e boa referência quando se está perdido na região, já que é um dos poucos altos edifícios da cidade.

31/12/2011 - Capitólio (Havana/Cuba)

– Real Fábrica de Tabacos Partagás: também estava fechada para visitação, era possível apenas tirar fotos do hall de entrada e comprar charutos na lojinha.

31/12/2011 - Fábrica de Tabaco Partagas (Havana/Cuba)

– Hotel Inglaterra: à noite, se vê de longe, todo iluminado. Bom lugar pra pegar táxi.

– Paseo del Prado: devia ser bom pra desfilar de charrete naquela época. Com o sol a pino e quase sem sombras, não me senti muito glamourosa.

1/1/2012 - Passeo del Prado (Havana/Cuba)

– Museo de la Revolución: me disseram que não valia a pena entrar, então só tirei fotos de fora.

31/12/2011 - Museo de la Revolución (Havana/Cuba)

– Edifício Bacardi: bela vista da cidade, lá de cima. A arquitetura do prédio também é bonita. Único elevador que peguei na cidade. Tem um bar bem caído lá dentro, não vale a pena.

31/12/2011 - Edifício Bacardi (Havana/Cuba)

Vedado

– Sorveteria Coppelia: começamos nosso passeio por Vedado a partir de uma sorveteria localizada em um grande edifício de vidro e metal, construída em 1966 pelo governo (logo após a revolução) como um presente para o povo. O edifício fica localizado no meio de uma grande praça ocupada por tendas e bancos, e existem duas filas para tomar o desejado sorvetinho: a do povo cubano e a dos turistas. Apesar de todas as indicações que recebemos anteriormente privilegiassem a fila dos turistas, a área dos sorvetes para estrangeiros estava vazia. Ao contrário da área para o povo, que tinha uma fila grande, mas que dava direito a entrar no prédio – é claro que fomos nos enfileirando nesta. Um homem e uma senhora, posicionados logo à nossa frente, reforçaram que tomaríamos um sorvete bem mais saboroso se fôssemos à outra fila, porém mais caro. Após cerca de 25 minutos, fomos liberados para subir as escadas que levam ao andar da guloseima. Por coincidência, mesmo com tanta gente no local, fomos alocados pela garçonete na mesma mesa dos dois simpáticos cubanos que conversamos na fila – motivo para estender bastante o papo. Eles disseram que, quando a sorveteria foi inaugurada, eram cerca de 20 sabores diferentes todos os dias, e as filas eram bem maiores. Havia música e todos enchiam aquele salão nos finais de semana. Em nossa visita, recebemos a oferta de dois sabores: baunilha e laranja com abacaxi. Novatos, não sabíamos que poderíamos pedir acompanhamentos – os nossos colegas de mesa, além do generoso pote de 6 bolas de sorvete, ganharam também um bolo (que ajudava a cortar o doce do ‘helado’). De época em que o país sustentava mais recursos, ele morou um tempo na Tailândia a trabalho e ela, na Espanha. Hoje, viajar é apenas sonho ou fantasia – suas moedas já não permitem tal luxo. O sorvetão ficou por 5 pesos cada um, cerca de 10 centavos de dólar.

1/1/2012 - Sorveteria Coppelia - Vedado (Havana/Cuba)

– La Rampa e Cine Yara: points dos jovens, as calçadas ficam cheias de gente. Parece uma matinê dos anos 50.

1/1/2012 - Vedado (Havana/Cuba)

– Hotel Nacional: na entrada, luxosos carros conversíveis antigos para aluguel. O hotel é totalmente ocupado por curiosos e visitantes. Após o hall, abre-se um espaçoso gramado, onde mesas lotadas de copos vazios de mojitos não recolhidos prevêem o que experimentamos: os garçons não davam conta de atender todas as mesas e, após cerca de 1h30, fomos embora sem bebericar nada. Porém, vale a vista do Malecón e as fotos do hotel iluminado após o pôr-do-sol.

1/1/2012 - Hotel Nacional - Vedado (Havana/Cuba)

– Plaza de la Revolución: nem precisa dizer nada… bastam as fotos!

4/1/2012 - Plaza de la Revolución - Vedado (Havana/Cuba)

4/1/2012 - Plaza de la Revolución - Vedado (Havana/Cuba)

– ICAIC: o Instituto Cubano del Arte y la Industria Cinematográficos foi criado em 1959 pelo governo revolucionário e desde então o cinema cubano vem ganhando cada vez mais destaque, graças ao festival anual organizado pelo instituto. Ao contrário das minhas expectativas, somente pudemos visitar a sala abaixo, repleta de pôsteres de filmes nacionais, a maior parte deles de forte cunho político, mesmo que lubrificados pelo estilo da comédia. Mas não necessariamente são propagandas do governo – muitos dos filmes delatam sérios problemas surgidos a partir do sistema comunista. O diretor mais famoso é o Tomás Gutiérrez Alea, de Fresa Y Chocolate, que trata de temas como o homossexualismo e a dissidência política, e também de La Muerte de un Burocrata, sobre os trâmites infindáveis que uma viúva passa para ter acesso aos recursos do governo pelo falecimento do marido. No café à frente, convenientemente chamado Fresa Y Chocolate, é possível comprar artigos relacionados ao cinema cubanos, mas como nossa visita foi num domingo, a tienda estava fechada. Comprei alguns pôsteres na Calle Obispo, já que estão à venda em todas as livrarias dali.

8/1/2012 - ICAIC (Havana/Cuba)

8/1/2012 - ICAIC (Havana/Cuba)

– Restaurante El Hurón Azul: fica muito próximo ao Hotel Nacional, mas na primeira vez que tentamos ir, como já estava escuro, não encontramos. Na segunda vez, fomos para almoçar, e nos surpreendemos com um mojito delicioso, com um toque de angostura, um ceviche bem gostoso e um “guarapero de pescado”, feito com caldo de cana. Muito bom!

4/1/2012 - El Hurón Azul - Vedado (Havana/Cuba)

Outros bairros

Cruzando as águas próximas à Habana Vieja, é possível chegar ao Castillo del Morro e na Fortaleza de Cabaña, onde antigas construções estão abertas para visitação e, às 21h de todas as noites, acontece o famoso cañonazo. Um passeio de 1h30 é suficiente para conhecer o local, com bela vista da Habana Vieja, algumas salas com exposições sobre revolucionários e um museu de armas.

8/1/2012 - Fortaleza de la Cabaña (Havana/Cuba)

8/1/2012 - Fortaleza de la Cabaña (Havana/Cuba)

8/1/2012 - Fortaleza de la Cabaña (Havana/Cuba)

8/1/2012 - Fortaleza de la Cabaña (Havana/Cuba)

8/1/2012 - Fortaleza de la Cabaña (Havana/Cuba)

Feliz ano novo

Em Cuba, tudo é motivo de festa, drinks, dança e música. É claro que o ano novo não seria diferente… Mas não chega a ser uma mega celebração, como no Brasil. A tradição por lá é jantar cerdo (porco) e cumprimentar os familiares à meia-noite, ao som do rádio e às luzes da TV estatais repletas de cenas da revolução. No lugar de fogos de artifício, canhonaços diretamente do castelo.

Passamos a virada do ano na casa de uma família, amigos da Rosa: eu e Gustavo, um casal de ingleses, um canadense e uma romena. Jantamos assim que chegamos lá, por volta das 20h30, e em seguida um projetor ligado no quintal começou a mostrar clipes de reggaeton. Um pouco contrariados de início, entramos na roda de dança, após ajudarmos a levar todas as mesas pra dentro da casa. Rolou salsa também, e os mais soltinhos deram um show de baile. Na hora da virada, uma cidra para comemorar, sem tirar os olhos da TV, onde os governantes faziam seus votos.

31/12/2011 - Fiesta de Año Nuevo (Havana/Cuba)

Fotos de Havana em: http://www.flickr.com/photos/cris_gal/sets/72157628816449965/

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